Trata-se unidade de conservação de proteção integral situada nos municípios paulistas de Angatuba e Guareí, que possui área de 1.394,75 hectares e tem como objetivo a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas.
Segundo o Plano de Manejo da U.C., “A região da Estação Ecológica de Angatuba (EEcA), situa-se na Depressão Periférica Paulista no subcompartimento denominado Depressão do Paranapanema. A Zona do Paranapanema é caracterizada em geral por relevos mais recortados e acidentados do tipo morretes alongados e espigões ou colinosos do tipo colinas médias, enquanto as colinas amplas são mais restritas. O tipo climático é Cwa, característico das porções centrais e setentrionais da Depressão Periférica Paulista, assim como do centro do Estado, apresentando temperatura média no mês mais frio inferior a 18°C. O verão é quente, sendo a temperatura do mês mais quente superior aos 22°C. As chuvas também se concentram no verão e as menores precipitações ocorrem no inverno, sendo inferior aos 60 mm.
A região da Estação Ecológica está inserida na bacia hidrográfica do Alto Paranapanema. O rio Guareí que faz limite com a EEcA, corre paralelamente ao rio Itapetininga em direção ao rio Paranapanema. Nesta bacia hidrográfica encontra-se o perímetro Botucatu da APA Corumbataí/Botucatu/Tejupá (Decreto Estadual n° 20.960, de 8 de junho de 1983), que abrange o município de Guareí e pequena porção do município de Angatuba.
A região apresenta recursos hídricos de exuberante beleza, destacando como paisagens notáveis a cachoeira do Corrente e a Cachoeira dos Mineiros. A primeira queda d’água, situada no bairro denominado Corrente, nas proximidades da Estação Ecológica, tem a visitação pública vetada pelo proprietário da área, enquanto a segunda, localizada na estrada que dá acesso à Unidade de Conservação, é muito utilizada pela população local para recreação e lazer.
Fazendo limite com a Estação, em sua porção noroeste, está localizado o córrego do Sargento, que drena uma microbacia de 1.627 ha. Este curso d’água tem nascentes tanto no interior da unidade, como em área particular utilizada pela reflorestadora Klabin. A vegetação natural acompanha o curso d’água em quase toda sua extensão. Porém, isto não é suficiente para evitar o assoreamento de seu leito por material arenoso proveniente dos terrenos mais elevados da microbacia. Em alguns trechos do córrego há afloramentos de rochas, pequenas corredeiras e quedas d’água, com destaques para as cachoeiras do Sargento e das Antas. No terço superior do curso d’água há uma grande parede rochosa, de onde escoa água para o córrego.
A VEGETAÇÃO da região corresponde ao tipo Floresta Estacional Semidecidual (VELOSO; RANGEL FILHO; LIMA, 1991) que se caracteriza pela ausência de coníferas e pela perda parcial das folhas no período do inverno e ao tipo Savana mais conhecido pelo termo Cerrado em três diferentes fisionomias: Savana Florestada (Cerradão), Savana Arborizada (Cerrado sentido restrito) e Savana Gramíneo-lenhosa (Campo).”
Nos levantamentos da vegetação dessas áreas “foram amostradas um total de 355 espécies, sendo que 160 destas espécies ainda não haviam sido registradas para a Estação Ecológica de Angatuba. No entanto, considerando os dados primários e secundários, foram encontradas para a Estação Ecológica de Angatuba, 713 espécies vegetais. Sendo incluído nos dados secundários espécies de todas as formas de vida, enquanto que para os dados primários considerou-se predominantemente espécies arbustivas e arbóreas.
Entre as espécies listadas para a E.Ec.A, 15 constam como ameaçadas nas listas oficiais de espécies ameaçadas no Estado de São Paulo, no Brasil ou globalmente enquadradas na categoria em perigo, vulnerável ou presumivelmente extinta. Nessa última categoria constam Clitoria densiflora e Gouania ulmifolia.
A maior parte das espécies ameaçadas foi registrada para a Floresta Estacional (10 espécies), com destaque para Euterpe edulis (palmito-juçara), de valor alimentar e registrada nas áreas aluviais, e de outras mais comuns nas áreas de interflúvio e exploradas no passado em função do potencial madeireiro, como Machaerium villosum (jacarandápaulista), Cedrela fissilis (cedro) e Balfourodendron riedelianum (pau-marfim). Já no Cerrado foram registradas as espécies ameaçadas Aspidosperma quirandy e Clitoria densiflora. Em função da situação crítica da conservação dessa formação no Estado, esperava-se o registro de maior número de espécies ameaçadas para a unidade”.
MAMÍFEROS: “Foram registradas um total de 26 espécies, pertencentes a 15 famílias de mamíferos de médio e grande porte na E.Ec. de Angatuba, sendo que nove destas constam na lista de fauna ameaçada do Estado de São Paulo (São Paulo, 2008), sete na lista nacional (INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2003), três são consideradas como ameaçadas pela lista da IUCN (2008) e uma espécie é considerada exótica. A ordem Carnivora, representada por quatro famílias (Canidae, Procyonidae, Mustelidae e Felidae), foi a que apresentou maior número de espécies (N = 10), seguida pelos Xenartrhos (tamanduás e tatus) com quatro espécies. As demais ordens foram representadas por no máximo duas espécies, com destaque para o único representante da ordem dos primatas com registro confirmado na região, o mico-leão-preto.”
AVIFAUNA: “Foram registradas 188 espécies. Três delas constam da lista estadual de espécies ameaçadas de extinção e uma destas integra também a lista da IUCN. Outras três espécies foram consideradas como provavelmente ameaçadas de extinção pela lista estadual. Não foram detectadas espécies endêmicas, no sentido de que nenhuma das espécies registradas apresenta distribuição geográfica restrita à E.Ec. de Angatuba ou à Bacia Hidrográfica do Alto Paranapanema ou até mesmo ao Estado de São Paulo. Entretanto, foram registradas sete espécies com distribuição restrita ao Bioma Mata Atlântica e uma ao Bioma Cerrado. (SILVA, 2005; CORDEIRO, 2007). Esta última é a gralha-do-cerrado (Cyanocorax cristatellus). Contudo, é uma espécie que foi beneficiada pelas alterações ambientais, colonizando áreas que originalmente eram parte da Mata Atlântica, ex. São Miguel Arcanjo e São Paulo. Portanto, ela não deveria mais ser considerada como endêmica ao Cerrado.
A Floresta Estacional Semidecidual Aluvial foi o ambiente que apresentou maior riqueza. Ambientes de origem antrópica como as áreas com vegetação herbácea, capoeiras e açudes apresentaram uma baixa riqueza, mas uma alta proporção de espécies exclusivas, contribuindo para a diversidade beta da E.Ec. de Angatuba. Cabe ressaltar que essas espécies apresentam distribuição ampla e são de baixa prioridade para a conservação. Nenhuma espécie exótica de ave foi detectada. Vinte e três espécies são migratórias. A maioria reside na E.Ec. de Angatuba durante a estação chuvosa, inclusive se reproduzindo, e migra para o Brasil Central e Amazônia durante a seca. Duas espécies diferem deste padrão por não residirem na área, estando de passagem para regiões mais ao Sul e Leste: o gavião-tesoura Elanoides forficatus e o sabiá-ferreiro Turdus subalaris. Por falta de amostragem durante a estação seca não foi possível detectar espécies que residem na E.Ec. de Angatuba apenas durante esta estação, sem se reproduzirem. Quatro espécies são reconhecidamente prejudicadas pela fragmentação de habitat, declinando acentuadamente e mesmo se extinguindo em fragmentos florestais pesquisados no interior do Estado de São Paulo. O vira-folha-vermelho (Sclerurus scansor) e a Maria-tiririzinha (Hemitriccus orbitatus) são espécies florestais que habitam o sub-bosque de áreas em estágio avançado de sucessão e apresentam baixa capacidade de deslocamento entre fragmentos isolados. Já a araponga (Procnias nudicollis) e o pavó (Pyroderus scutatus) apresentam grande capacidade de deslocamento, mas por serem frugívoros de grande porte necessitam que haja uma grande diversidade de fruteiras para manterem populações viáveis numa determinada área. Durante os trabalhos de campo não foram encontrados indícios de exploração, caça e captura, da avifauna da E.Ec. de Angatuba. As espécies cinegéticas observadas foram os inhambus (Tinamidae), patos (Anatidae), o jacupemba (Penelope superciliaris) os pombos (Columbidae) e o pavó (Pyroderus scutatus). As espécies observadas que frequentemente são capturadas para a utilização como animais de estimação foram: o papagaio-verdadeiro, Amazona aestiva, o tucanuçu Ramphastos toco, a araponga Procnias nudicollis, o sabiá-laranjeira Turdus rufiventris, o canário-da-terra Sicalis flaveola, o bigodinho Sporophila lineola, o coleirinha Sporophila caerulescens, o trinca-ferro Saltator similis, o azulão (Cyanoloxia brissonii) e o pintassilgo (Carduelis magellanica). As últimas seis espécies integram a lista das dez mais apreendidas pela Polícia Ambiental em 2006 no Estado de São Paulo (CRESCE…, 2007), sendo que o canário-da-terra ocupou o primeiro lugar pelo segundo ano consecutivo.
Quanto às interações entre a avifauna e a vegetação, parte considerável das espécies de aves contribui com a manutenção da estrutura e do funcionamento dos ecossistemas da E.Ec. de Angatuba. Vinte e oito espécies, 15 % do total registrado, nectarívoras e onívoras, atuam como polinizadores, principalmente os beija-flores (Trochilidae), a cambacica Coereba flaveola e os sanhaços e saís (Thraupidae). Quarenta e nove espécies, 26 % do total registrado, frugívoras e onívoras, atuam como dispersoras de sementes, por exemplo, o jacupemba, o surucuá-variado Trogon surrucura, o tucanuçu, os bem-te-vis (Tyrannidae), a araponga, o pavó, a juruviara Vireo olivaceus, os sabiás (Turdidae) e os sanhaços e tiés (Thraupidae). E vinte e uma espécies, 11 % do total registrado, são granívoras, predando sementes e participando do controle populacional das espécies vegetais, ex. os inhambus, os pombos (Columbidae), os periquitos (Psittacidae) e os papa-capins e tico-ticos (Emberizidae). Willis e Oniki (2003) encontraram 16 espécies não detectadas no presente levantamento. Com um período maior de amostragem, cobrindo pelo menos um ano inteiro, é bem provável que a maioria dessas espécies possa ser detectada. Em apoio a essa idéia, cabe destacar que cinco delas são migratórias, presentes no interior do estado apenas durante a estação seca. Entretanto, as três espécies registradas por Willis e Oniki (2003) que constam da lista estadual de espécies ameaçadas, podem ter se extinguido localmente na E.Ec. de Angatuba. São espécies que habitam formações menos densas do cerrado, como o cerrado sensu stricto e o campo sujo. Durante amostragem encontramos trechos muito pequenos e degradados de cerrado sensu stricto e apesar do tiê-do-cerrado Neothraupis fasciata e do batuqueiro Saltator atricollis serem espécies conspícuas, não foram encontrados nesses trechos. No período de 23 anos que separa as duas pesquisas sobre a avifauna da E.Ec. de Angatuba, as áreas de cerrado parecem ter se tornado muito densas e inadequadas para a manutenção de populações dessas espécies. Portanto, pelo menos 200 espécies de aves ocorrem na Estação Ecológica de Angatuba. A partir do reconhecimento dos habitats disponíveis e de experiência prévia de uma década efetuando levantamentos de aves no Estado de São Paulo, acredita-se que a avifauna nuclear, ou seja, excluindo se espécies vagantes, da E.Ec. de Angatuba seja composta por 230 espécies.”
A Estação Ecológica de Angatuba foi criada através do Decreto nº 23.790, de 13 de agosto de 1985, em terras de domínio da Fazenda do Estado, nos municípios de Angatuba e Guareí, com a finalidade de assegurar a integridade dos ecossistemas ali existentes e de proteger sua flora e fauna, bem como sua utilização para objetivos educacionais e científicos.
A localidade onde se encontra Estação Ecológica de Angatuba era uma antiga fazenda particular pertencente a Clóvis Vieira de Moraes (1932-2002), o qual, segundo depoimento colhido para elaboração do Plano de Manejo, “Devido a problemas de origem familiar, endividou-se, precisando apelar para seu tio Antônio Vieira Sobrinho, conhecido como Toniquinho Pereira, que em sua vida política foi prefeito de Angatuba e Itapetininga, duas vezes deputado estadual e federal, mantendo bons relacionamentos na capital. Sendo assim conseguiu intermediar a venda da Fazenda da Conquista ao Governo do Estado de São Paulo de forma a saldar as dívidas familiares. Consta que na época da venda, a vegetação da fazenda já estava bastante alterada devido as diferentes atividades pecuárias e agrícolas (cultura de algodão, milho, café) que até então ali tinham sido empregadas (Depoente Sr. Francisco Roldão Moraes Turelli, Angatuba/SP, 2007).”
Em 1965 é comprada a Fazenda da Conquista pelo Governo do Estado de São Paulo, criando a Floresta Estadual de Angatuba em uma área de 2.590,15 ha. Segundo depoimento oral de Antônio Cecílio Dias, biólogo, pesquisador científico do Instituto Florestal, o contexto histórico que envolvia a época era: “Na época da criação da Floresta Estadual a política do então Serviço Florestal era o reflorestamento com espécies exóticas do gênero Pinus e Eucalyptus, tendo em vista minimizar o impacto na exploração do Pinheiro do Paraná (Araucaria angustifolia) espécie nativa sob ameaça de extinção. Após a sua criação, a Floresta Estadual não teve sua área total plantada restando alguns trechos que eram consideradas como áreas livres para reflorestamento. Em 1985, nestas áreas que não foram utilizadas para o reflorestamento foi criada a Estação Ecológica de Angatuba. Para a criação desta área três fatores foram primordiais: existir o amparo legal em função do Decreto Federal para criação das Estações Ecológicas; engajamento do Diretor Geral do Instituto Florestal o Sr. João Regis Guillaumon, pela proteção de áreas naturais; e a pressão de movimentos sociais pela posse da terra principalmente em áreas pertencentes ao poder público. (depoente PqC Antônio Cecílio Dias, Itapetininga, 2007).
Nesse tipo de Unidade de Conservação, em princípio, a visitação pública só é permitida para fins educacionais ou de pesquisa científica. Em que pese isso, a página da Estação Ecológica de Angatuba no site do Instituto Florestal possui um item voltado ao Turismo, no qual, dentre outras atividades, é prevista a “observação da fauna e da flora silvestre”. Além disso, como infra-estrutura para visitação é listado “abrigo de montanha”.
Confira em http://www.iflorestal.sp.gov.br/areas_protegidas/index.asp
Não há informes sobre a existência de outras obras de infra-estrutura.
Em fevereiro de 2009, quando da publicação do Plano de Manejo da Estação, a situação foi assim retratada: “Os recursos humanos, veículos e equipamentos são comuns a Floresta Estadual de Angatuba e as construções existentes estão instaladas na Floresta Estadual. Isso torna essencial a administração conjunta dessas duas unidades, decorrendo em um planejamento e execução das ações de manejo de maneira associada. Neste sistema conjugado as duas unidades contam com 10 funcionários, sendo 07 braçais e 03 auxiliares de apoio a pesquisa que desenvolvem as funções de manutenção da área e dos bens públicos, plantio, monitoramento das pesquisas, acompanhamento de grupos organizados e vigilância. Dentre os veículos ambas as Unidades são atendidas por um caminhão Mercedes Benz 608, ano 78, um veículo Jeep, ano 79 e uma motocicleta Honda 125 cc, ano 2005. Os equipamentos que dão suporte à gestão das duas unidades são: um trator 4×4 MF 292, ano 2004, uma roçadeira Super Tatu, mod R.O., duas roçadeiras costais e uma motoserra”.
Tudo muito pouco e precário para 2.590,96 hectares, resultado da somatória das áreas das duas unidades de conservação.
INSTITUTO FLORESTAL DO ESTADO DE SÃO PAULO
http://www.iflorestal.sp.gov.br/areas_protegidas/index.asp
PLANO DE MANEJO DA ESTAÇÃO ECOLÓGICA DE ANGATUBA
http://www.iflorestal.sp.gov.br/Plano_de_manejo/eec_angatuba/Plano_de_Manejo_EEc_Angatuba.pdf